domingo, 11 de outubro de 2009

Afinal, o que é ser um vira-latas?

Ótimo post que encontrei no Mãe de Cachorro. Meus comentários estão em vermelho.

Essa vida é esquisita... Postei o texto que segue abaixo em março deste ano, no dia em que retirei das ruas a Bebel, gravidíssima, que foi castrada no dia seguinte e que depois virou Cora, foi doada, fugiu, foi encontrada e, finalmente, ganhou um lar pra lá de maravilhoso. Na época, só repassei o texto aqui pro blog, botei uma frase em negrito e deu.

Hoje, recebi o mesmo texto da querida Mircea e ao relê-lo, tive uma reação totalmente diferente. Como consegui simplesmente postá-lo em março, sem tecer maiores comentários?

Antes de mais nada, gostaria de dizer (ou mais provavelmente, de repetir, porque já devo ter dito isto aqui antes) que os cães (e gatos) não são vira-latas. Eles estão. Estar vira-latas é ter a infelicidade de precisar vasculhar lixeiras em busca de comida. Não ter raça definida, ou seja, ser um cão SRD (Sem Raça Definida), é ser filhote de qualquer raça misturada [Eu tenho uma definição um pouquinho diferente: considero mestiços os cães com pelo menos um dos pais de raça conhecida e SRDs aqueles que são de origem desconhecida ou indefinida. Exemplos: mestiço de cocker = cocker + SRD, mestiço de cocker com poodle = cocker + poodle, SRD = SRD + SRD]. Mas as pessoas sempre confundem e acham que o cão vira-latas é o sem raça definida. Se for um schnauzer revirando lixo, por exemplo, não é vira-latas, é abandonado. Ai, ai... Enquanto isso, compram cachorros mestiços e se acham no direito de ter preconceitos contra os pobres animais de rua, ou que têm família, mas não a tal raça 'definida'. Você diria que uma pessoa é "de rua"? Ninguém "é de rua", são as circunstâncias que definem este "ser das ruas" e, consequentemente, virar as latas... Você tem preconceitos contra pessoas que vivem essa extrema miséria humana? Bem... Preciso dizer que quem despreza um "simples cão" com certeza desprezará um ser humano? A base do respeito ao próximo é a mesma, seja ele de que espécie for...

"Ah, Ana, mas o meu cachorro é de raça! É filho de poodle com bichon frisé..."
Eu digo: É SRD! (e se pra você ser SRD é ser vira-latas, digo mais, é vira-latas!)
"O meu é pastor alemão com pastor belga."
Eu repito: É SRD! (e se pra você ser SRD é ser vira-latas, repito também, é vira-latas!)
[Os dois casos acima eu chamaria de mestiços, mas claro que os mestiços também são cães sem raça definida, ou seja, os mestiços são SRDs, mas eu gosto de usar uma terminologia diferente para ficar mais especificado. Isso é importante para o meu trabalho de treinamendo de cães, pois o temperamento e o comportamento são muito dependentes da raça. Se a gente sabe pelo menos uma parcela das raças que compõem determinado cachorro, pode entender melhor as atitudes dele e consequentemente direcionar melhor o treinamento]

Acordem, pessoas, principalmente as que compraram aquele filhote de shih tzu que depois ficou com cara de lhasa apso (ou de gremilim)... Ou aquele pinscher que depois tinha mais jeito de chihuahua... [Só uma pequena observação: aqui o contrário é mais provável, já que o chihuahua é mais difícil de criar do que o pinscher - cabeça grande costuma requerer cesária, as ninhadas são menores e a raça é mais delicada - então é mais comum um chihuahua ser misturado com pinscher do que oposto] Arrisco dizer, sem exagero, que existem na verdade poucos animais de raça realmente pura, principalmente no Brasil, o país do 'jeitinho', onde há tanta falsificação de pedigrees e certificados "de pureza" quanto de tênis, CD, DVDs e por aí a coisa caminha.

Esta semana, ainda, conheci uma senhora que pagou R$2.500,00 (sim, eu disse dois mil e quinhentos reais) em um filhote de pastor alemão com sarna demodécica de um "criador" aqui de Floripa. Foi lá reclamar e ouviu "Escolhe qualquer outro e leva no lugar."... (claro, pro infeliz que o vendeu, é só uma mercadoria com defeito)

"Ah, mas esse não vale! É puro, 'só' tem uma doença", vão me dizer (sem atinar que, por acaso, é uma doença inaceitável em qualquer plantel de criador decente e honesto, diga-se de passagem...). Até pode ser, por acasos de viver em cidade relativamente pequena, conheço uma outra cadela do mesmo "criador" e ela é o trash, do trash, do pastor alemão, totalmente fora do padrão, e se aquela pobrezinha ganhou pedigree, meus amigos, que porcaria de Kennel Clube temos em Floripa! [Infelizmente acho que esse problema não é só aí, é no Brasil todo]

Aliás, porcaria mesmo, porque quando comprei o Shoyo, a mulher teve o descaramento de oferecer para eu registrar o Sushi como sendo da mesma ninhada (sem nem ter visto a cara dele e, pior, o Sushi sendo dois meses mais velho que o Shoyo!). E é claro que os dois teriam um super hiper pedigree, totalmente dentro das normas, legalizado, assinado, carimbado e, claro, devidamente pago! [Também acontece no Kennel do Recife deles tirarem o pedigree de ninhadas sem nem ver os filhotes. Assim como acontece deles registrarem o mesmo cachorro duas vezes, gerando assim um pedigree falso para outro cão qualquer. Por isso eu acho que pedigree tinha de ser um documento obtido em etapas. Primeiro, quando filhote, o cachorro seria analisado pelo padrão físico - se bem que num filhotinho dá para ver muito pouca coisa - e receberia um documento temporário. Depois, com 1 ano e meio de idade ou mais, o cão teria de ser submetido a exames físicos, de saúde e de temperamento. Se e somente se tudo estivesse OK ele então receberia o pedigree definitivo. Isso ajudaria a fazer com que só tivessem pedigrees os que realmente estivessem dentro do padrão - em todos os aspectos, não só no físico - e ainda reduziria o cruzamento legalizado de cães muito jovens, pois os pais com registro temporário não poderiam gerar ninhadas com pedigree]

Então, pessoas queridas, abram seus olhinhos cheios de fantasias românticas e, se realmente quiserem comprar um animal, estudem exaustivamente a raça e procurem um criador decente com o mesmo critério que procurariam um médico para salvar a vida de vocês. Porque com menos atenção e cuidado do que isso, lamento informar, mas você corre imensos ricos de terminar levando ou um cão SRD pra casa, ou no mínimo um péssimo exemplar da raça [que ainda pode vir com várias doenças genéticas], que só porque ganhou um papelzinho carimbado com importância superestimada, te faz sentir 'especial', quando na verdade, está só atestando a sua santa ignorância e ingenuidade.

Mas vamos ao texto, e aos comentários que desta vez não consegui deixar de fazer [em azul]...

Mitos e verdades sobre vira-latas

Por Cristiano Baldi - para o Yahoo!

Um cão sem raça definida (SRD) é aquele que não tem a origem definida em um pedigree, que é um certificado que atesta a ascendência do animal. Já o termo vira-lata se refere ao comportamento de muitos cães SRD [só SRD não, epa, epa, epa! Tem muiiito cão 'de raça pura' que é abandonado e tristemente precisa virar latas por aí...] que, abandonados, vagam famintos pelas ruas, revirando latas de lixo atrás de algo para comer. Um cão SRD abandonado, ao menos em teoria, deixa de ser um vira-lata depois de ser adotado por alguém. E isso vem acontecendo cada vez mais: adotar cães abandonados virou moda.

Cada vez mais gente prefere escolher um vira-lata, em um abrigo para animais, a comprar um cãozinho de raça [Eu queria acreditar que isso é verdade]. Este é de fato um hábito muito saudável que, além de diminuir a população de animais abandonados em nossas cidades, ajuda no controle das zoonoses. Mas junto com a popularização da prática, surgiram alguns mitos.

O primeiro deles é de que ao adotar um vira-lata filhote, ao contrário do que acontece com os cães de raça, não se pode saber qual o temperamento e o tamanho que ele terá quando adulto. [Dá pra dizer o mesmo de cães vendidos, principalmente os que são dividos em tamanhos ridículos [e errados pois não existe tal classificação]: 0, 1, 2, 3. A pessoa compra o tal do poodle 0 [zero], que parece minúsculo porque muitas vezes não ganha comida para não crescer, e depois termina com uma ovelhinha na sala...] A verdade é que o temperamento depende muito mais da criação do que da raça [Eu já comentei essa frase na matéria original que foi postada no Mãe de Cachorro em março deste ano. A frase está errada: temperamento é 100% genético e portanto depende dos pais e avós biológicos. Comportamento é que depende da criação. Há uma grande confusão entre esses dois termos. Um cachorro com temperamento dominante vai sempre ser dominante, porém isso pode ser melhorado muito com treinamento e com os donos certos. Um cachorro com temperamento dócil pode virar uma fera se sofrer abusos]. Assim, se o bichinho for tratado com amor e respeito, provavelmente será dócil e carinhoso. E o tamanho pode sim ser estimado. Segundo a veterinária gaúcha Fernanda Pante, que trabalhou por alguns anos em um abrigo para animais abandonados em Caxias do Sul, a partir dos dois meses já é possível intuir o porte. "Há alguns indícios, como o tamanho das patas e um ossinho no crânio, chamado crista do occiptal, que é mais proeminente em raças maiores", diz ela.

Fernanda, que adotou dois vira-latas, desfaz também outro mito: "Algumas pessoas adotam cães adultos achando que o manejo é simples, que não dá trabalho e que eles aprenderão rápido. Mas há cães adultos que têm um manejo mais complicado. Antes de adotar um animal adulto é preciso se informar sobre a personalidade dele. Será que o bichinho é adequado para aquilo que estou procurando?". [Concordo que há cães que "têm manejo mais complicado", principalmente com a realidade que estou vivendo na adoção da Vênus, mas não acho que este seja um motivo para preferir um filhote ou um cão comprado. Qualquer cachorro, seja de que idade ou raça for, pode ser mais ou menos fácil de lidar, de adestrar, de conviver. E os mais 'terríveis', são geralmente os mais inteligentes. Quem tem que saber mais e sempre estar no controle da situação somos nós, humanos e 'animais racionais'... E outra, o tal do aprender mais ou menos rápido também depende muito de quem está ensinando e como. Tem muito adestrador troglodita que ganha os bichos na base da grosseria e da porrada mesmo, daí, não há raça pura que resista. Um amigo meu tem um labrador com pedigree e o escambau, que foi adestrado por dois idiotas na base do choque e que virou um verdadeiro monstro desequilibrado. Levaram anos pra reabilitar minimamente o cão e até hoje ele não é bem certo das ideias, pobrezinho...] [Também concordo com a história do "manejo mais complicado", mas se um adulto *pode* ser difícil, um filhote é *com certeza* difícil, pois ele precisa aprender a fazer xixi e cocô no lugar certo, a não roer, a não morder por brincadeira, etc. e ainda vai passar pela adolescência, que na minha opinião é a fase mais difícil de toda a vida de um cachorro. De uma forma geral, filhotes dão bem mais trabalho do que adultos, então eu acho que vale mais a pena adotar um cão já adulto]

Outra crença muito comum reza que os vira-latas seriam mais inteligentes. O publicitário, ator e locutor gaúcho Rafa Tombini, dono do Pirata, um simpático SRD malhado, concorda: "Eles são mais amigos e mais inteligentes e por isso podem parecer um pouco agitados". Segundo Fernanda, isso pode até ser verdade, mas talvez não seja uma característica genética: "A gente nota que eles são extremamente espertos. Muitos animais que vieram da rua passaram por condições bem difíceis. É possível que por isso eles tenham aprendido a se virar melhor, de um jeito mais criativo."

A crença de que os cães vira-latas seriam mais resistentes a doenças também é verdadeira. Os cães de raça, por terem menor variedade genética, ficam mais suscetíveis a moléstias. "O vira-lata tende a ser mais resistente justamente por conta de uma grande mistura de genes", diz Fernanda.

Ao adotar um vira-lata, além de arrumar um amigão, você estará fazendo uma boa ação para toda a sociedade. Mas não esqueça: o mais importante para quem deseja ter um cãozinho é o comprometimento. Seja de raça ou não, o animal precisa de cuidado, carinho e dedicação [além e principalmente de exercícios e treinamento. Citando Cesar Millan, as 3 coisas mais importantes para um cachorro são, *nessa ordem*: exercícios, limites e afeto]. Se nada disso faltar, a sua história certamente terá um final feliz.

Fonte

1 comentários:

  1. Sandrinha querida, adorei teus comentários! Dá um pulo lá no blog, porque postei o documentário Segredos do Pedigree na íntegra, de uma tacada só.

    http://www.maedecachorro.com.br/2009/08/segredos-do-pedigree-assista-na-web-com.html

    Beijooo e obrigada por contribuir!

    ResponderExcluir